Alentejo and Algarve
O rouge sulista, o porco frustrado, Alentejo and Algarve é prova viva do tormento da dialética nas instituições. A sua formação, há meia dúzia de décadas nos escombros de uma república mercantil em declínio, opôs dois antípodas em desacordo total de como chegar ao utópico: as comunas populares - levantamentos espontâneos de camponeses iletrados nas grandes quintas que rápido se organizaram em guildas descentralizadas para organizar tarefas - e a intelligentsia revolucionária - um conjunto de progressistas guiados pelo livro, desejando erguer nas cinzas da fraqueza liberal um estado robusto baseado em ideias comunistas. E enquanto os primeiros têm as suas bases no extenso campo agrícola e nas cooperativas formadas, os letrados na liderança refugiam-se na capital de Felicia Argos, a cidade veneziana construída de raiz numa das ilhas algarvias, dando pareceres e iniciando certames centralistas sobre comunas distantes com repercussões inversamente proporcionais à distância da cidade-mor.
Mas o país corre. E lá vai. Com uma síntese ideológica que reúne socialismo e o mercantilismo passado numa corrente denominada de Cunhalismo, o Grã-Cônsul determina os desígnios do seu povo, ou de quem o quiser ouvir, num sistema burocrático que dá primazia a um politburo executivo absoluto composto por elementos eleitos por meios democráticos de entre partidos, sindicatos, guildas, territórios e todos as associações da sociedade civil. A governação do dia-a-dia varia entre o retorcido mar de inércia, papelada e formulários para as ninharias da prole e a ação pragmática, e muitas vezes duvidosa, quando o interesse nacional, por parco que seja, é posto em causa. Setores basilares como a marinha, só ultrapassada pelos estaleiros do Douro, ou as indústrias metalúrgicas e do armamento alimentam os interesses estratégicos da nação, focada em, eventualmente, vencer o braço de ferro que trava com todos os seus vizinhos por dominação do pedaço continental do sul. Assim é a narrativa oficial, censuradas são as fotografias das elites revolucionárias rindo tête-a-tête em casinos e bordéis além-fronteiras com emissários inimigos.