Kyrie
Melissa acorda subitamente com o movimento dos carris. Com o rosto semicoberto por um chapéu de abas largas, observa a paisagem alentejana que deslizava pela janela. Ao fim de 5 anos de planeamento e 5 anos de construção, a nova linha tinha sido finalmente inaugurada e reduzido a viagem de Melissa para metade.
Os passageiros à sua volta eram sombras indistintas, perdidos nas suas próprias viagens, com olhares vazios e expressões endurecidas pelo tempo e pelo desgaste. A maioria deles são trabalhadores comuns, parte da nova classe operária de La Cloaca. Melissa é uma presença deslocada, uma burocrata estrangeira no meio de operários e artesãos alentejanos.
Com um suspiro pesado, olha para o monte de papéis no seu colo e continua a ler o relatório. O seu trabalho é simples, passar pela Sé de La Cloaca e verificar que as obras estão a prosseguir sem problema. Tinha sido escolhida a dedo pela administração superior, e ela não tratava de casos pequenos. Melissa era a funcionária mais chata de toda a Comuna e conhecia todos os regulamentos e artigos necessários para tratar de pessoas pouco cooperantes. Nunca um projeto em que estivera envolvida tinha falhado a cumprir prazos. Quanto trabalhou na Grande Ciclovia de Jeronímia, houve transferências forçadas e acidentes misteriosos, mas as bicicletas começaram a circular antes do início da Primavera.
A Sé parecia insignificante em comparação. Melissa não sabia porque é que o Secretário-Adjunto tinha tanto interesse na conclusão rápida deste assunto, mas não lhe competia a ela questionar as decisões do Partido. Além disso, estava feliz por poder viajar mais, era a primeira vez que participava numa operação internacional.
O comboio começa a abrandar. Melissa arruma os papéis na sua pasta e prepara-se para desembarcar. Esta era a última estação.
Melissa avança pela plataforma, sentindo a pressão da multidão à sua volta. Enquanto caminha em direção à Sé, observa a cidade com um olhar crítico e calculista. La Cloaca ainda era uma das zonas mais pobres do Arquipélago continental, mas fervilhava de atividade. O habitual sol peninsular estava obscurecido pelo fumo do novo centro industrial. Desde que dois cientistas Astartianos descobriram que os excrementos de coruja continham propriedades úteis para a indústria têxtil, forte investimento internacional tem rejuvenescido a antiga cidade pesqueira. A arquitetura antiga mistura-se com os edifícios modernos de betão e aço, numa cacofonia visual que refletia o tumulto social e económico da região. La Révolution.
Ao chegar à Sé, depara-se com um cenário previsível: um edifício imponente, mas claramente em decadência, cercado por maquinaria pesada e operários apressados. Melissa dirige-se ao engenheiro-chefe, um homem baixo e atarracado com um capacete manchado de óleo.
Melissa mostra as suas credenciais e começa a escrevinhar notas no seu caderno enquanto o engenheiro fala sobre o progresso das obras, com um forte sotaque alentejano.
— Tá a ser difícil, uma canseira! Se bem calha, tá pronto lá no final de junho. Sem dinamite a malta quase que tem que tirar as pedras uma a uma!
Ri-se, mas rapidamente continua ao ver o olhar furioso de Melissa.
— Nã se zangue comigo! Nã tenho culpa do acordo que fizeram com a Confraria.
Melissa sabia que ele tinha razão. Quando se discutiu pela primeira vez a construção de um Centro Comunitário por cima da antiga Sé, a administração da cidade tinha recusado o pedido da Comuna para expropriar a propriedade da Confraria dos Sete Sobreiros. A Confraria era responsável pelas atividades religiosas em várias cidades do Arquipélago, e tinha o apoio da população local. Ainda assim, seguindo a doutrina da descontração, a Confraria concordou em ceder a Sé, mas apenas se fosse desmontada muito cuidadosamente, e cada pedra movida para um novo sobreiro no monte acolá. Assim se começou a relocação da Sé de La Cloatra para a Igreja de Ali Além. No entanto, a direção da Comuna não estava satisfeita.
No dia anterior…
Melissa foi recebida por uma série de olhares atentos ao entrar no gabinete do Secretário-Adjunto. Segundo os regulamentos do Partido, todas as reuniões eram assistidas por uma seleção de uma dúzia de representantes sindicais e secretários.
Na cabeceira da mesa, o Secretário-Adjunto, um homem alto e magro com óculos redondos e cabelo grisalho bem aparado, levantou-se para cumprimentá-la, com uma voz grave e pausada:
— Camarada Melissa, a situação na Sé de LC encontra-se num estado alarmante. A administração local decidiu ceder à influência de cultos pagãos e acabou de causar atrasos significativos nas metas que definimos. Considerando o elevado investimento de recursos e esforços que temos empenhado, é imperativo que estes incidentes não se repitam no futuro. A emancipação da classe trabalhadora no Arquipélago da Coruja irá acontecer nos próximos anos. Disto não temos dúvida.
— Omnia sunt communia! — proclama um dos camaradas
Ouve-se vozes de concordância pela sala.
— É de extrema importância para a continuação dos nossos planos no Arquipélago que estas obras sejam concluídas assim que possível. Irá partir no próximo comboio para LC, iniciar uma inspeção imediata e acelerar este processo.
…por quaisquer meios necessários. Ela sabia o papel que tinha a desempenhar.
Melissa entra na Sé e observa o interior. No centro do edifício circular, um grande sobreiro crescia, ocupando grande parte do edífico e a cúpula de vidro que se sobrepunha. A única iluminação eram os raios de sol que atravessavam a copa da árvore, criando um espetáculo de luz e sombra nas paredes e chão de xisto. Nos ramos mais altos, pendiam pequenos cristais, refletindo a luz e projetando arco-íris efémeros que pareciam flutuar pelo espaço sagrado. Nos sete altares que rodeavam o centro da Sé, podiam ver-se várias ilustrações, todas com a mesma inscrição:
O Compadre estava encostado ao tronco, contando uma história das Escrituras. Os fiéis, espalhados pelos degraus que envolviam a árvore, escutavam relaxadamente, uns sentados e outros deitados. Melissa não gostava de religiões organizadas, mas ficou impressionada com aquele espaço. Será um excelente Centro Comunitário, pensa, enquanto acende um fósforo.
O trágico incêndio na Sé de La Cloaca não causou mais do que meia dúzia de mortes, mas depois de limpos os destroços, os planos do projeto puderam ser alargados para também incluir as casas vizinhas destruídas pelo fogo. Melissa decidiu aproveitar as férias antecipadas e visitar a sua irmã em Eolina.