Prólogo
Na imensidão oceânica de um planeta distante, flutua, sem rumo nem destino, um colossal continente de seu nome Portugal. Estendendo-se do ponto norte do seu mundo até ao seu equador, é heterógeno nas suas composições topográfica e climática, encontrando o corajoso aventureiro ou o desfavorecido migrante uma miríade de paisagens naturais, das escarpas galegas aos baixios alentejanos, dos montes hermínios às praias algarvias, dos pântanos do Tejo às planícies do Douro.
Tão abundante como a beleza natural é a determinação de um pequeno símio que desde a sua geração primeira escolheu espalhar-se e multiplicar-se, em jeito potencial, por todo o canto desta terra ora inóspita ora fértil. Desde a sua fixação sedentária, este ser de nome homem congrega-se em comunidade, construindo em seu redor sociedades cada vez mais complexas e especializadas, países! Países estes que trocam, conferenciam, misturam-se, batalham, fazem paz, algumas singram, mas tantas, no decorrer constante da história, tornam-se meros rodapés em edições antigas. Novas nações formam-se rapidamente, quer pela autodeterminação dos povos migrantes, quer pela constante reformulação dos estados após colapsos brutais, repetindo as ações dos seus antecessores num sádico movimento rumo à glória ou à hecatombe. Zelando pela estabilidade continental está uma organização composta por representantes de todas as nações reconhecidas: a Delegacia. Sediada em Lisboa, cabe a este órgão de liderança rotativa orientar os desígnios de Portugal e assegurar a colaboração dos países individuais na manutenção da harmonia (embora os seus apelos caiam muitas vezes em orelhas moucas).
Independente da sua origem, as nações que o homem controla não têm esperança de abandonar a terra que lhe dá abrigo. Os antigos falavam dos grandes terrores para lá das 100 léguas de costa, uma besta inverosímil que atacava as mentes dos marinheiros que, pela pesca ou descoberta, procuravam no mar a sua sorte. A ciência moderna prova que, rodeado por oceano, Portugal está igualmente cercado por uma indefinível, mas letal névoa. No seu modus operandi a homicida primeiro entorpece os membros de quem consigo contacta, deixando a vítima suscetível ao próximo passo, uma contaminação cerebral que joga com os medos profundos e existenciais de cada qual; por fim, quando o sujeito foi suficientemente minado física e psicologicamente, dá o seu golpe final pela laringe, asfixiando o ser. Embora aparentemente inescapável, a esperança reside no seio da humanidade. Lendas abundam de uma raça antiga, resistente aos fumos marítimos, que após unificar o continente sob um selo faraónico retornou à sua terra-mãe, uma ilha encantada do outro lado do mar. Eventos recentes mostram que a névoa é dissipável embora por meios ainda desconhecidos. A ascensão da plataforma denominada de Galiza, para além dos antigos limites minhotos dão indicação da existência de fenómenos incompreensíveis ao homem.